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| CT do Sfera FC (Foto: Emilio Botta) |
Um clube sem pressão por grandes resultados, que não aspira estar nas principias divisões e não sofre com a cobrança vinda das arquibancadas. É quase impensável um time com essas características no futebol brasileiro. Mas ele existe.
Fundado em 2021, o Sfera FC é basicamente uma empresa voltada para resultados financeiros no futebol: quer simplesmente formar e revelar talentos e vendê-los para clubes do exterior.
A SAF é composta por três sócios, todos do mercado financeiro, entre eles Gustavo Aranha, atualmente no cargo de CEO.
Tratando a formação de atletas como um projeto de incentivo à evolução pessoal e profissional, independentemente de seguir no esporte ou não, o clube não tem como prioridade os resultados esportivos. Ou seja, ser campeão é consequência e não um objetivo.
– Fundamos o Sfera pensando como um modelo de negócio sustentável no futebol. Queríamos fazer um business no futebol e víamos muita dificuldade de clubes no Brasil serem rentáveis. Então a gente começou a estudar um pouco o porquê e a nossa ideia de inovação foi justamente ser um clube que não tem um time principal, não tem um time profissional, mas tem uma estrutura profissional de formação.
– O Sfera decidiu ser um iceberg grande, mas sem a tampa do iceberg, a gente não tem a parte profissional, mas aqui embaixo da água, como eu brinco, na base, na formação, a gente quer ser um dos melhores do Brasil, enfim, acho que em vários aspectos a gente já é um dos grandes, bons do Brasil, mas a gente quer ser reconhecidamente uma das melhores bases do Brasil, ser um modelo de negócio sustentável, formando atletas e transferindo os atletas quando eles estão já mais para o fim do processo de formação – explica Gustavo Aranha.
Com categorias de formação e captação de atletas do sub-11 ao sub-20, o Sfera atualmente ocupa uma área de 600 mil metros quatros, com quatro campos, sendo três naturais de um sintético.
O CT, que é alugado da família de um sócios e que já foi a casa do Red Bull Bragantino, pode acomodar mais de 100 atletas, além de ter academia, piscina, sala de fisioterapia, enfermaria, auditório, sala de estudos e refeitório.
A previsão do Sfera é conseguir atingir o “breakeven” (chamado de ponto de equilibro no mercado financeiro, quando iguala despesas e receitas, mas ainda sem gerar lucro nem prejuízo) em 2028.
Até aqui, na captação de investimentos, o clube possui 30 acionistas não-controladores, que injetaram R$ 50 milhões no projeto. Cada um deles adquiriu “cotas” que variam entre entre R$ 500 mil e R$ 10 milhões.
– Montamos e operamos o clube nos primeiros anos com um capital próprio, o nosso, dos três sócios, mas no nosso plano de negócio, a gente sabia que precisaria de capital de fora, e se planejou para isso. E está executando, num processo de atrair sócios. Estamos no momento de atração de famílias e investidores para o Sfera.
– A gente já tem quase 30 famílias acionistas e que têm um percentual do clube, então o jeito que a achamos de chegar na sustentabilidade do breakeven, que na nossa conta é em 2028 só, é vender uma parte do clube para famílias que queiram ser donas de um clube de futebol.
A partir do momento em que o clube passar a ter lucro, os dividendos serão de acordo com o investimento feito por cada um dos acionistas. No entanto, o clube segue sendo controlado pelos seus três sócios.
O nome de batismo Sfera remete ao processo de formação dos jogadores que precisam passar por todas as "esferas" de metodologia que o clube acredita, como formar cidadãos e atletas para o planeta.
Educação é um dos pilares
O Sfera aposta na educação como um dos pilares para a formação de jogadores “pensantes”. A metodologia do clube acredita na importância de dar conhecimento aos atletas não apenas pensando em melhorar o entendimento de cada um deles sobre cultura, finanças ou até para assimilar um possível contrato assinado, mas na sequência da vida sem o futebol como fonte de renda.
– A gente não está inventando a roda, o Brasil forma atleta há muitos anos, é o maior exportador de atletas, então tem uma parte disso aqui que não é nada diferente. Temos que ser iguais aos melhores.
– Mas tem uma parte que investimos muito, e aí sim é diferente, que é a formação do pescoço para cima, a formação acadêmica, formal, psicossocial, emocional dos atletas. Isso é muito relevante e em vários modelos diferentes aqui no Brasil é meio renegado.
– Não falamos vender atleta, e sim transferir os atletas, porque acho que aqui tem uma mensagem subliminar que no fim eles não são coisas, são profissionais. O modelo é esse: formar, transferir e com o retorno da transferência, tanto a primeira, mas principalmente a segunda, que a gente fica com percentual, que isso seja reinvestido no clube e aí sim vira um business autossustentável – explica o CEO do clube.
O clube oferece cursos de capacitação e de inglês, por exemplo, pensando em uma melhor adaptação do atleta no caso de um intercâmbio com algum clube do exterior.
Recentemente, no ano passado, um jogador do Sfera venceu o quadro “Pequenos Gênios”, do programa Domingão com Huck, da Globo.
– Na Copa do Mundo de 2022, eu tinha nove anos e assisti muitos jogos. Eu já gostava de jogar, mas vendo a Copa eu quis jogar mais e comecei a acompanhar. O Sfera incentiva e faz o acompanhamento do meu desempenho através do boletim escolar e sempre tem palestras e conversas sobre a importância da escola e da educação na nossa vida – disse, em entrevista na época.
Atualmente, Felipe Baldi integra o sub-12 do Sfera onde atua como defensor.
Venda milionária ao Grupo City
Um dos primeiros frutos do projeto foi a venda do atacante Dieguinho, de apenas 14 anos, ao Grupo City, especificamente ao Bahia. O negócio é considerado o maior em valores de um jogador sub-15, com a possibilidade de alcançar até 1 milhão de euros (R$ 6,1 milhões na cotação atual), entre valor fixo e metas alcançadas.
A negociação no mercado interno é considerada um movimento atípico para as pretensões do Sfera. Raramente um clube nacional desembolsa esse montante para a aquisição dos direitos econômicos de um atleta. As tratativas são sempre para um cessão gratuita com a manutenção de um percentual de venda futura.
O projeto do Sfera é negociar jogadores com clubes menores de grandes ligas da Europa, como nas parcerias firmadas com Basel (Suiça), Midtjylland (Dinamarca), Malmö (Suécia) e La Coruña (Espanha). Assim, o clube brasileiro consegue uma venda inicial por um valor considerado baixo, mas mantém um percentual para seguir lucrando com transferências futuras dentro do continente europeu.
– Eu não quero maximizar essa primeira transferência, quero que juntos a gente maximize a segunda transferência, então o grosso do nosso retorno vai vir das segundas e terceiras transferências, obviamente as primeiras geram, vamos dizer assim, tem que pagar meio que o nosso custo e tal e a gente consegue fazer isso, mas a nossa expectativa de retorno para reinvestir no business como um todo é nas segundas e terceiras transferências lá na frente – comenta Aranha.
O Sfera já enviou atletas para os Estados Unidos, México, Inglaterra, Portugal, além dos países dos respectivos clubes citados acima.
Sem torcida, mas em busca de fãs
Fundado inicialmente na cidade de Salto, agora sediado em Jarinu e mandando jogos em Santana de Parnaíba, o Sfera não possui torcedores orgânicos. A torcida é formada por familiares e amigos de jogadores e investidores, além de funcionários.
O fato do clube se limitar às categorias de base e não ter interesse na profissionalização contribui para a falta de interesse geral e a fidelização de torcedores locais, no caso de Jarinu e região.
O CEO do time enxerga com bons olhos a ausência de torcedores nas arquibancadas. Mesmo assim, busca atrair fãs para o time com apenas quatro anos de existência.
– O Sfera não vai ser um clube popular, primeiro porque ele decidiu começar do zero, então já é um caminho difícil de você conquistar fãs. E depois escolhemos ficar numa região do futebol que é embaixo d'água, como a gente estava falando e brincando aqui, que é a formação, que não tem muita visibilidade, não tem torcedor, mas olhando para o lado e olhando a experiência que a gente tem.
– Eu acho bom, uma das coisas que acho ruim do modelo de formação dos clubes tradicionais, que não é culpa deles, é que aquela volatilidade e aquele maluquice do resultado, que é típico do profissional, reverbera também na formação.
O Sfera garantiu a classificação inédita para a disputa da Copa do Brasil sub-17 de 2026 ao ser campeão paulista da categoria derrotando o Ibrachina, outro time com modelo de SAF e que tem incomodado os grandes clubes na base.









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