Jogos Históricos da Paraíba: após atropelar o Atlético-PB, Nacional de Patos leva o Paraibano 2007

Nacional de Patos - Campeão Paraibano 2007(Foto: Ascom/Nacional AC)
O ano de 2007 teve, sem dúvida, o Campeonato Paraibano mais sertanejo deste século. Patos e Cajazeiras dominaram essa edição do estadual, conquistando, cada, um turno. Depois disso, duas batalhas foram travadas para decidir quem ficaria com a taça de campeão da Paraíba: Nacional de Patos ou Atlético de Cajazeiras. Foi naquele ano que o Canário do Sertão cantou a sua mais bela canção, faturando uma inédita conquista, deixando o Estádio José Cavalcanti completamente preenchido de verde e branco. Este é o sétimo episódio da série Jogos Históricos da Paraíba, do GloboEsporte.com.
O Campeonato Paraibano de 2007
A edição 2007 do Campeonato Paraibano prometia. Afinal, havia três temporadas, a competição terminava com uma equipe de Campina Grande como campeã. Para o Sertão, a última conquista havia sido do Atlético de Cajazeiras, em 2002.
O estadual contou com 10 participantes: Atlético-PB, Auto Esporte, Botafogo-PB, Campinense, Desportiva Guarabira, Esporte de Patos, Nacional de Patos, Perilima, Sousa e Treze. O Paraibano começou no dia 21 de janeiro e chegou ao fim em 13 de maio.
O formato da competição era o seguinte: dois turnos de pontos corridos, o primeiro com jogos de ida, e o segundo com as partidas de volta, com os quatro primeiros colocados se classificando para as semifinais do primeiro e depois do segundo turno. O mata-mata era disputado em jogos de ida e volta, com as equipes de melhor campanha jogando com a vantagem. Os campeões de cada turno decidiram o título em dois jogos finais. Enquanto isso, os rebaixados seriam os dois times que menos pontuassem na classificação geral.
Naça de Carlinhos Paraíba
Aquele time do Nacional de Patos contava com grandes jogadores. Na época, um jovem saiu do banco de reservas e se aventurou entre os titulares. O bom desempenho de Carlinhos Paraíba mostrava como o jogador era diferenciado, sendo um dos destaques do Naça naquela edição do Campeonato Paraibano. Depois daquele ano, o meia jogou por Santa Cruz, Coritiba, São Paulo e clubes do Japão.
Nós revelamos um grande jogador, que era Carlinhos Paraíba. Ele, jovem, começou no banco de reservas. Quando Helinho se machucou, ele se tornou titular para não sair mais. Ele jogava pela esquerda, Ribinha no meio e eu pela direita. Edmundo ficava no ataque. Nós atacávamos com esses quatro, além de termos uma defesa bem sólida com Wescley e Henrique – recorda Lamar, camisa 10 daquele time.
Atualmente, aos 37 anos, o jogador ainda atua, tendo disputado a temporada passada pelo Anapolina. Ainda existe um desejo da diretoria do Nacional de Patos em contar com o meia para um possível último contrato profissional.
Recentemente, o Nacional de Patos transmitiu dois jogos históricos daquela campanha: a final do primeiro turno contra o Sousa e a decisão do estadual contra o Atlético de Cajazeiras. Carlinhos Paraíba gravou um dos vídeos divulgando uma das partidas (confira abaixo).
Sertanejos protagonistas e com a mentalidade vencedora
O Campeonato Paraibano de 2007 foi realmente protagonizado pelos times do Sertão, mas, para o Nacional de Patos, campeão do primeiro turno, o negócio precisou de um pouco mais de tempo para engrenar. Quem se lembra bem desse momento são dois jogadores que se destacaram naquela equipe: o volante Raminho e do meia Lamar. Ambos rememoraram o momento da primeira derrota do time na competição: foi na terceira rodada, 3 a 1 para o Botafogo-PB, no Estádio Almeidão.
Raminho afirmou que ficou bastante contrariado quando o treinador do time, Maurício Simões, parabenizou o grupo pela postura na derrota para o Belo.
No terceiro jogo do campeonato daquele ano, eu percebi o motivo pelo qual o Nacional não ganhava títulos. A gente mandou no jogo, mas perdemos por 3 a 1. O treinador entrou na roda e parabenizou a equipe. Naquele instante, eu tomei a palavra e perguntei o motivo de parabenizar. Disse que vínhamos fazendo boas campanhas e perdendo o campeonato. Falei que não adiantava, tínhamos que fazer história, porque o time era experiente. Disse que, se continuássemos daquela forma, nunca seríamos campeões – contou Raminho.
Aquele foi o pilar para a retomada do Naça na campanha do primeiro turno. Inclusive, depois do discurso de Raminho, o time só perdeu no jogo de ida da final daquela etapa, contra o Sousa.
No primeiro turno, o Nacional de Patos terminou com a terceira melhor campanha, com 18 pontos somados, sendo cinco vitórias, três empates e uma derrota. O time ficou atrás apenas de Campinense, o líder, e do Esporte, o grande rival da equipe em Patos. O quarto colocado, também classificado, foi o Sousa. Ou seja, dos quatro classificados, três equipes eram sertanejas.
Nas semifinais, o Nacional encarou o Esporte num confronto pesado entre os rivais de Patos. O Canário venceu o primeiro jogo por 3 a 1 e garantiu a vaga depois e empatar em 1 a 1 na volta. Na decisão, veio o Sousa, um adversário tradicional, campeão paraibano em 1994.
O Dinossauro venceu a primeira partida por 2 a 1, no Marizão, em Sousa, mas o Naça, que teve uma campanha superior na classificação, foi coroado campeão com uma vitória por 1 a 0 no José Cavalcanti, em Patos.
Lamar também recorda do ponto-chave para a retomada nacionalina, mas destaca que o time tinha uma postura muito moderna de jogar futebol.
A campanha foi muito rica no sentido de maturidade que o time ganhou com o passar dos jogos. Eu me lembro que, na terceira rodada, contra o Botafogo-PB, nós perdemos por 3 a 1. Tinha uma mentalidade de time pequeno dentro do grupo. A comissão técnica parabenizou a equipe por ter perdido apenas de 3 a 1. Aquilo foi um marco. Nós tínhamos que pensar grande, aí a conversa ali foi dura. Depois daquilo, não perdemos mais na fase de classificação. Mas foi tudo muito positivo. Eu acho que aquele time jogava um futebol muito moderno para aquela época – lembra o ex-camisa 10 do Naça.
O segundo turno também foi marcado por um desempenho absurdo dos sertanejos. Ao final da fase de classificação, novamente três dos quatro times garantidos nas semifinais foram do Sertão. No caso, o Sousa liderou a fase com 18 pontos, contra 17 de Atlético-PB e também 17 de Nacional de Patos. O Treze fechou a lista, em quarto, com 16 pontos.
Nas semifinais, o Treze derrotou o Sousa e garantiu vaga na decisão, enquanto o Atlético-PB venceu o Nacional de Patos tanto na ida quanto na volta, garantindo o direito de encarar o Galo na decisão.
A finalíssima, em dois jogos, foi vencida pelo Atlético-PB por conta da melhor campanha. O Treze venceu a ida por 2 a 1, enquanto o Trovão venceu a volta pelo mesmo placar. Como terminaram a fase melhor classificados que os trezeanos, os atleticanos conquistaram a taça.
Ou seja, Nacional de Patos e Atlético de Cajazeiras disputariam a final do Paraibano de 2007, em jogos de ida e volta, para saber qual sertanejo levantaria aquele título.
Para Lamar, o Nacional de Patos tinha algo mais especial que os demais times daquela edição do Campeonato Paraibano. O elenco era capaz de seguir feliz diariamente.
O time era muito unido, nós íamos cantando no ônibus. O povo de Patos se encantava com a nossa alegria. O pessoal até perguntava como um time de futebol podia esbanjar tanta felicidade. E nisso a cidade se fechou para aquele momento. Parece que todo mundo sabia que terminaria com título. Eu cresci muito depois dali. É algo que jamais eu vou esquecer. Foi um ano fantástico. Eu me machuquei pouco, marquei muitos gols. Foi muito marcante – recorda o ex-jogador.
A primeira partida foi disputada em Cajazeiras, com o time da casa saindo vitorioso: 2 a 1, de virada. Os gols foram marcados por Edmundo para o Naça, enquanto Júnior Mineiro virou para o Trovão. Um empate faria o Atlético-PB bicampeão do estado. Ao Nacional de Patos, bastava uma vitória simples, já que tinha feito melhor campanha geral que o adversário. O Canário, que já havia sido vice-campeão paraibano em outras quatro edições, buscava se livrar dessa imagem de perdedor em decisões.
O jogo
O jogo reunia muita alegria por parte da torcida, que lotou o Estádio José Cavalcanti. Contudo, também existia desconfiança dos torcedores, que temiam mais um vice-campeonato por parte do Canário do Sertão. Nesse período, o time já havia trocado de treinador duas vezes. Primeiro saiu Maurício Simões e chegou Reginaldo Sousa.
Depois chegou Jorge Luís, justamente para a reta final do estadual. Curiosamente, o seu antecessor, Reginaldo Sousa, foi para o Atlético-PB, o adversário na final.
Nós entramos em campo com uma certa pressão da torcida, porque tínhamos perdido o primeiro jogo. Tinha uma desconfiança. Tínhamos também trocado de treinador antes das decisões. Na época, o Nacional tinha 45 anos de história e ainda não havia título, tinham frustrações por finais perdidas. Daí, nós jogadores fizemos um pacto para ser campeão. O grupo era muito unido. Agora a noite de sábado foi tensa, muita pressão. Mas conseguimos dedicar toda a energia naquela partida – conta Lamar.
Com um Estádio José Cavalcanti lotado, o Nacional de Patos não parecia dar mostras de que perderia aquele confronto, e o tempo tratou de mostrar como o time verde e branco estava pronto para se sacramentar campeão paraibano. Jorge Luís mandou para campo um time com Danilo, Dinho, Henrique, Wescley e Arlindo; Raminho, Buik, Rogério Costa e Lamar; Edmundo e Ribinha, enquanto Reginaldo Sousa escalou um Atlético-PB com Bel, Geilson, Welson, Martins e Valença; Brito, Erivelton, Kel e Reginaldo; Júnior Mineiro e Lanzinho.
Nos 90 minutos, uma exibição de gala do Naça, com Wescley marcando o primeiro gol na reta final do primeiro tempo. Na segunda etapa, teve mais um tento, agora marcado por Ribinha, e o próprio Lamar, que anotou um dos gols mais bonitos daquela edição do campeonato.
Dentro de campo, fomos soberanos. Perdemos um pênalti logo no início da partida, com Edmundo. Eu também perdi uma boa oportunidade no começo da partida. Até que no finalzinho do primeiro tempo, Wescley marcou de cabeça. Aquele gol foi determinante, fomos para o intervalo com a vantagem. Mas voltamos para o segundo tempo com muita força, indo para cima. Ribinha fez o segundo gol. Nós continuamos atacando. O meu gol foi em jogada de contra-ataque: eu recebi perto do meio de campo, girei para cima de Reginaldo, do Atlético-PB, fui na velocidade e consegui arrastar a bola até a meia-lua do adversário; eu já sabia que Bel se adiantava bastante e bati a bola por cima, fazendo o terceiro gol.
O golaço de Lamar rende até os dias de hoje. O jogador garante que aquele foi o gol mais bonito de sua carreira. E mais, segundo ele, muitos colegas garantem que ele poderia disputar o Prêmio Puskas, no qual a Fifa coloca em votação o gol mais bonito do ano. Em 2007, esse troféu ainda não existia.
Foi o gol mais importante e mais bonito da minha carreira. Foi um momento muito especial para mim. Aquele título marcou uma geração. Também marcou a cidade de Patos: torcida e população possuem um respeito por aquele grupo. Eles se orgulham pelo feito do Nacional. Aquele golaço ficou marcado para mim, eu tinha 27 anos, já havia passado pelo Botafogo-PB. Mas depois daquele gol, eu recebi outras oportunidades. O engraçado é que muitos me disseram que eu poderia ter disputado o Prêmio Puskas. Mas, na época, ainda não existia – disse o então camisa 10 nacionalino.
Com requintes de crueldade, o Nacional de Patos atropelou o Atlético de Cajazeiras. Um 3 a 0 para garantir o primeiro e, até hoje, único título estadual da 1ª divisão da cidade de Patos. Um momento memorável para uma geração que marcou época.
FICHA TÉCNICA
Nacional de Patos 3 x 0 Atlético de Cajazeiras
Gols: Wescley aos 46 minutos do primeiro tempo, Ribinha aos seis minutos e Lamar aos 31 minutos do segundo tempo.
Local: Estádio José Cavalcanti, em Patos
Arbitragem: Alexandre Magno
Nacional de Patos: Danilo, Dinho, Henrique, Wescley e Arlindo; Raminho, Buik, Rogério Costa e Lamar; Edmundo e Ribinha (Nunes). Técnico: Jorge Luís.
Atlético de Cajazeiras: Bel, Geilson (Robson), Welson (Naldo), Martins e Valença; Brito, Erivelton, Kel e Reginaldo; Júnior Mineiro e Lanzinho (Wagner). Técnico: Reginaldo Sousa.
O legado
O Nacional de Patos tem 2007 como o ano mais especial de sua história. Foi por causa daquela conquista que o time disputou a Série C do Campeonato Brasileiro daquele ano, além de jogar a Copa do Brasil do ano seguinte, quando mediu forças com o Fluminense. Aqueles jogadores do ano de 2007 são considerados heróis. O gol de placa de Lamar está na lembrança de várias gerações.
Por sinal, o futebol mudou a vida do camisa 10 do Nacional de Patos em 2007. Treze anos depois, aposentado da modalidade, hoje Lamar é secretário de esporte e juventude do município do Crato, no Ceará. Depois d carreira como meia, o ex-jogador cursou Educação Física, se tornando professor.
Eu sou secretário municipal de esportes desde o início da gestão, em Crato. Já estou há três anos e seis meses. Sou formado em Educação Física, sou professor. Venho fazendo um trabalho muito grande, com vários projetos. Temos um projeto de ginástica e dança em praças, para comunidades mais pobres e para o pessoal da terceira idade. A minha vida no futebol me ajudou muito, me deu bagagem. Não deixei nenhum legado negativo como atleta. Depois disso, me formei, fui para a faculdade, estudei e hoje estou dentro de uma secretaria. O futebol me deu tudo, foi essencial para a minha vida – conta Lamar.
Raminho também guarda grandes lembranças daquela conquista. O ex-jogador destaca que aquele título quebrou hegemonias, desafiou a lógica do futebol na Paraíba. Para ele, esse é o principal legado.
O time era muito experiente. Eu, Rogério Costa, Edmundo, Dinho, Nunes. Ou seja, era uma equipe muito experiente. Nós chegamos a ser taxados como time de veteranos, de quarentões. Mas isso serviu para nos unirmos mais ainda. Aquilo foi importante para a cidade e para nós jogadores também. O time que desafiou os considerados grandes para ser campeão paraibano – concluiu o ex-jogador do Naça.
Depois daquela conquista do Nacional de Patos, o Sertão voltou a conquistar a taça de campeão paraibano apenas dois anos depois, em 2009. Depois dos títulos de Canário e Dinossauro, o lado sertanejo do futebol paraibano jamais voltou a erguer um troféu de 1ª divisão. Desde então, Campinense, Treze e Botafogo-PB foram campeões, com o Belo sendo atualmente tricampeão consecutivo (2017, 2018 e 2019).

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