Cacique Babau Tupinambá: "O esporte nos une, mas a política, nem sempre"

Cacique Babau Tupinambá(Foto: Divulgação)
O cacique Babau Tupinambá é uma das lideranças indígenas mais conhecidas do país. Como representante dos Tupinambás de Olivença, povo que vive na região de Olivença, distrito de Ilhéus, na Bahia, ele tem defendido o direito de sua gente à terra e ao acesso a coisas básicas, como educação e saúde. Essas são garantias que jamais deveriam ser questionadas, mas, infelizmente, o que acontece é o oposto.
Tenho reunido aqui na coluna depoimentos sobre os Jogos Indígenas, que ocorrerão em 2021. O ponto de partida dessas conversas é sempre o esporte, mas é claro que as manifestações passam por outros aspectos da vida desses brasileiros.
Também conhecido como Rosivaldo Ferreira da Silva, Babau Tupinambá falou sobre temas que foram de avanços tecnológicos a fé, de preservação da cultura a eleições. Para ele, o esporte é um elemento de união entre os indígenas – e a política, nem sempre.
Cacique, a palavra é sua!
"Eu nasci, cresci e sempre vivi na aldeia dos Tupinambás de Olivença, que fica aqui entre os municípios de Ilhéus, Itabuna, Buerarema, São José da Vitória e Una, no sul da Bahia. Aqui nós tocamos nosso modo de vida e nossa luta.
Ao lado de outras lideranças indígenas, eu sempre briguei pela preservação da cultura tradicional do nosso povo, principalmente da nossa fé religiosa, da vivência com o sagrado. Ao mesmo tempo, a luta é contra o preconceito de muita gente que quer que nós, indígenas, tenhamos o mesmo modo de vida que tínhamos dois mil anos atrás.
Os indígenas também têm direito aos benefícios dos avanços tecnológicos. Nós não podemos nem queremos ficar parados no tempo. Temos que acompanhar a evolução da humanidade.
Nós também temos ocupado mais espaços na política. Eu vejo isso de duas maneiras. Por um lado, muito positivo, participar das eleições é também um instrumento de luta. Elegemos a deputada federal Joênia Wapichana (Rede-RR) em 2018, e agora Marquinhos Xukuru (Republicanos) foi eleito prefeito de Pesqueira, em Pernambuco.
Mas as eleições também têm criado uma divisão muito grande nas aldeias. Os indígenas se candidatam por 20, 30 partidos, acabam não elegendo ninguém, e só o que colhem é desunião. A política deixa de ser um instrumento de luta pelos direitos de todos para virar uma disputa de um indígena contra o outro. Isso é ruim para nós. O direito político, legítimo, não pode virar uma arma a ser usada contra nós para questionar nossos direitos à terra, à educação, à saúde, garantidos pelo Estado.
Não se pode partidarizar direitos e nem participar das eleições para fazer como muitos brancos, que às vezes só estão interessados no salário de político. Mas essa é uma questão nova, e, com preparo, tudo há de dar certo para nós.
O que sempre une é o esporte. Os Jogos Indígenas têm uma importância muito grande porque o esporte traz alegria e é também um descanso das batalhas do dia a dia. Afinal, fora desse momento de confraternização, estamos sempre no meio da lutas por nossos direitos.
Os jovens adoram os jogos, principalmente bola. Na competição, nós reafirmamos nossa cultura. Os jogos trazem fé, renovam nossa energia, são sinônimo de inclusão. É importante demais as pessoas se sentirem parte de algo maior que elas".

Por Walter Casagrande 
GE São Paulo
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