Imprensa inglesa critica demissões em excesso de técnicos no Brasil: ''Sobreviventes de um jogo tóxico''

Domènec Torrent ficou três meses no clube rubro negro até ser dispensado  — Foto: Alexandre Vidal/Flamengo
Uma reportagem do canal de TV inglês Sky Sports usou o fracasso do catalão Domènec Torrent , demitido do Flamengo nesta semana, para levantar questões sobre o motivo pelo qual uma nação orgulhosa do próprio futebol partiu para a Europa em busca de seus treinadores. A mídia inglesa também contesta a cultura de muitas demissões de técnicos no Brasil, algo que pode prejudicar o próprio jogo, já que, em busca de uma autopreservação, os treinadores são encorajados adotar um futebol que corre poucos riscos e sem criatividade.
A maneira como os clubes brasileiros estão agindo é definitivamente errada. Os treinadores passam uma semana, um mês, ou dois ou três, na esperança de fazerem maravilhas. Não é possível – disse Jürgen Klopp em uma entrevista no ano passado quando questionado sobre a situação no Brasil.
Técnico do Liverpool, o próprio Klopp teve que esperar quatro anos pelo seu primeiro troféu com o time inglês. Segundo a publicação da Sky Sports, no Brasil, o tempo médio de permanência de um treinador em um time é de cerca de 15 jogos. Dos 20 clubes que fazem parte da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, apenas seis mantiveram o técnico com o qual começaram a competição.
É o tipo de coisa que faz os dirigentes dos maiores clubes da Europa parecerem modelos de paciência, se compararmos ao Brasil. Os treinadores brasileiros são os sobreviventes de um jogo tóxico e tiveram que se adaptar a isso – afirma o jornalista inglês Adam Bate.
Além de Domènec Torrent, outro treinador estrangeiro com curta passagem pelo Brasil neste ano foi o português Jesualdo Ferreira, que ficou apenas sete meses no Santos. Ainda assim, os portugueses Ricardo Sá Pinto e Abel Ferreira, que comandam Vasco e Palmeiras respectivamente, aceitaram o desafio de trabalhar num mercado tão impaciente. Com a dupla argentina Jorge Sampaoli e Ramon Diaz à frente de Atlético Mineiro e Botafogo, atualmente, quatro dos 12 clubes de maior torcida do Brasil estão sendo treinados por estrangeiros.
A reportagem usa Oswaldo de Oliveira para exemplificar a instabilidade dos treinadores no Brasil. Ele terminou sua terceira passagem pelo Fluminense no ano passado, e também teve três passagens pelo Corinthians, e duas à frente do Flamengo e do Santos. O veterano treinador, campeão Mundial de Clubes com o Corinthians em 2000, trabalhou em 10 dos 12 maiores clubes do Brasil, mas nunca durou sequer dois anos em um desses empregos.
Os treinadores brasileiros da nova geração, fruto de um jogo globalizado, inspirado na obra de Jürgen Klopp e Pep Guardiola ficam perdidos neste cenário. A conversa de filosofias de futebol orientou sua abordagem, mas essa não é a realidade do que os espera no Brasil – afirmou o jornalista.
Segundo Adam Bate, a falta de imaginação no meio-campo é uma característica do futebol brasileiro há anos. Isso seria uma espécie de "traição às tradições do país", mas também pode ser uma consequência natural de outra da pressão que os dirigentes brasileiros fazem sobre os treinadores para os times jogarem de forma mais defensiva.
Todos os treinadores têm necessidades humanas. Uma delas é a necessidade de sustentar a família. Se as pessoas trabalham com medo de serem demitidas, o instinto é agir defensivamente. O futebol brasileiro não incentiva os treinadores a correr riscos e testar novas ideias. A tendência é ficar na zona de conforto, por causa da cultura implacável de demitir treinadores – revela Bruno Pivetti, ex-técnico do Vitória, entrevistado por Adam Bate na reportagem da Sky Sports.
Para o jornalista o modelo italiano é uma saída para que o futebol brasileiro finalmente mude essa cultura. Na Serie A, caso um treinador seja demitido, o contrato dele continua a ser pago pelo clube, e esse técnico não pode dirigir outra equipe na mesma competição até o fim da temporada.

Por Redação do GE
Londres, Inglaterra
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