Você sabia? Vírus infectou elenco do Fluminense há 34 anos e tirou chances de histórico tetra carioca

Time de 1986 chegou perto de marca histórica no futebol carioca — Foto: Arquivo Pessoal
Time de melhor campanha até a paralisação do Campeonato Carioca em 2020, o Fluminense teve interrompida temporariamente a sua busca pelo título devido à pandemia do coronavírus. Mas não é a primeira vez que um vírus atravessa o caminho das Laranjeiras. Se o cenário atual sem futebol tem todos os clubes como vítimas, há 34 anos a bola não parou de rolar, e o Tricolor foi o único prejudicado.
Essa história aconteceu durante o Estadual de 1986 e ficou equivocadamente conhecida como "o caso do surto de dengue no Fluminense". Na verdade, o surto era em Mesquita, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, e onde o Tricolor jogou na rodada anterior à polêmica partida contra o Americano. Segundo os jornais da época, dois jogadores contraíram a doença: Renê e Renato.
Mas o dano maior foi causado por uma epidemia no Rio, descrita por jornais como uma "virose respiratória transmissível" e que infectou vários jogadores do elenco tricolor: Ricardo Cruz, Vica, Eduardo, Edson Souza, Rogério, Tato, Alexandre Torres, Beto, Maurão... Além de garotos do sub-20. Todos se juntaram aos machucados Deley e Assis no departamento médico.
"É uma doença respiratória que debilita muito o jogador. Eles vão precisar de uma superalimentação para recuperar os quilos que perderam nesse período", disse o então preparador físico tricolor, Lúcio Novelli, ao "Jornal dos Sports" do dia 22 de maio de 1986.
Sob a alegação de que o "contato físico com os demais pode espalhar a doença" (qualquer semelhança é mera coincidência); e baseado no artigo 304 do Código Brasileiro da época – "o clube que colocar em campo jogador sem condições de saúde pagará multa de Cz$ 21 mil e 200 cruzados –, o Flu agiu. A diretoria obteve um laudo assinado por uma junta médica, atestando as doenças, e uma liminar na Justiça comum para pedir o adiamento o jogo contra o Americano sete dias depois.
Nós jogamos contra o Mesquita, e eu peguei dengue. Acabou o jogo e já cheguei em casa mal. Cheguei a ir para uma clínica, tomei injeção... Eu não tinha a mínima condição de jogar. Alguns jogadores se propuseram a jogar, isso eu lembro, mas o médico disse que não seria possível. Não sei se a nível de diretoria foi ventilada a ideia de colocar garotos ou reservas. O Fluminense até podia ter colocado um time misto, mas o jogo também poderia ter sido remarcado e não o fizeram. Houve esse problema de doença, sim, mas também briga política – lembrou o ex-meia Renê ao GloboEsporte.com.
O adiamento não aconteceu, e no dia 18 de maio daquele ano o Fluminense sequer viajou para Campos dos Goytacazes. Para ganhar os pontos por W.O. – Walk Over, expressão em inglês para "vitória fácil" –, o Americano abriu as bilheterias do Estádio Godofredo Cruz, solicitou policiamento, vendeu ingressos para sete torcedores e colocou o time em campo. Depois de 20 minutos, o árbitro Aluísio Viug encerrou a partida e registrou a ausência do Tricolor na súmula.
Depois de um primeiro turno ruim naquele Carioca, o tricampeão Fluminense começou embalado a Taça Rio e até a rodada em questão liderava o returno com sete pontos em quatro jogos, com três vitórias e um empate – os triunfos na época valiam só dois pontos. A derrota para o Americano por W.O., porém, permitiu a reação de seus concorrentes na tabela.
– O pouco que lembro é que esses pontos teriam feito diferença. Tivemos muitos jogadores contaminados, a questão médica teve um peso grande na decisão, e o jurídico do Fluminense achou que era de direito não ir. Lembro do clima de apreensão, se a gente ia viajar ou não, nós ficávamos na expectativa. Por mais que fosse a atitude certa, ficava aquela dúvida: "Será que vai dar certo? Vamos ter direito a jogar de novo? Será que não vai dar problema? Não vamos perder os pontos?" – recordou o ex-goleiro Ricardo Cruz, um dos jogadores que contraiu a virose.
O Fluminense ameaçou não jogar também na rodada seguinte, contra a Portuguesa na Ilha do Governador, mas os jogadores foram evoluindo o quadro clínico durante a semana. Renê, Vica, Renato e Maurão foram os que demoraram um pouco mais para se recuperarem. "A febre desapareceu, mas eles ainda se queixam de fraqueza, tonteiras e se encontram resfriados", disse o médico Alcir Laranja ao jornal "O Globo" do dia 22 de maio de 1986.
Três dias depois, o Tricolor voltava a campo e triunfava na Ilha do Governador por 2 a 0, com gols de Galo e Washington. A manchete do "Jornal dos Sports" estampou: "Tricampeão sente os efeitos da doença mas vence a Portuguesa", citando que muitos jogadores não estavam 100%.
Enquanto isso, a diretoria entrou na Justiça para remarcar a partida contra o Americano, mas acabou derrotada nos tribunais. No dia 10 de junho, em julgamento de 10 horas de duração e que só acabou na madrugada de terça para quarta-feira, o Fluminense teve o seu pedido negado por sete votos a quatro – chegou até a cogitar entrar na Justiça Comum. E em campo, o time terminou a Taça Rio com 16 pontos, um atrás do Flamengo, que foi para a final contra o Vasco, campeão do primeiro turno.
– O que aconteceu naquele ano é que nós fomos alijados do título. Nos tiraram porque sabiam que, se fôssemos para a final, ganharíamos de novo – afirmou Renê.
– A gente confiava no nosso taco. Era um time de personalidade forte, com Washington e Assis de referência, e o Romerito um animal para jogar. Naquela época, os jogadores eram todos amigos, saiam de noite, se encontravam na rua. Uma vez encontrei o Mozer e ele disse: "Não aguento mais perder para vocês, vou trazer o Galo (Zico) de volta" (risos) – complementou, citando uma lembrança entre 1983 e 1985, quando o ídolo do Flamengo tinha sido vendido para a Udinese, da Itália.
Último tricampeão pelo Tricolor, em 1983-1984-1985, aquele time bateu na trave de um feito histórico: ser tetracampeão carioca. Nas únicas duas vezes em que o Estadual teve quatro títulos seguidos de um mesmo clube sempre teve um asterisco. No tetra do próprio Fluminense entre 1906 e 1909, o título de 1907 foi dividido com o Botafogo. E no do Alvinegro, entre 1932 e 1935, nos três últimos anos foram realizadas duas competições e, com isso, tiveram dois campeões.
– Lembro desses comentários, mais na esfera do torcedor, que era a oportunidade de não deixarem acontecer o tetra, que seria histórico. Mas nada que a gente venha a contestar – disse Ricardo Cruz, sem querer entrar em polêmicas.
Se tivesse vencido o Americano – com o jogo adiado ou não –, o Fluminense teria terminado à frente do Flamengo, conquistado a Taça Rio e garantido vaga na decisão contra o Vasco, um clássico em que costumava levar ampla vantagem nos anos 80. Embora os dois jogos entre eles naquele Carioca tenham terminado empatados: 0 a 0 e 1 a 1. Ricardo Cruz, hoje auxiliar do ex-companheiro Edson Souza e que estava no Resende, acredita que o time teria buscado o tetra se tivesse ido para a final:
– Lógico que qualquer final entre os quatro grandes é impossível apontar favorito, porque clássico faz diferença. Mas as chances seriam grandes. Até porque a gente vinha em uma batida de três títulos estaduais e um brasileiro. Tínhamos um entrosamento muito grande e confiança, além de levarmos vantagem na época contra o Vasco, tinha essa freguesia. Quando fui para o Botafogo foi o contrário, não ganhávamos do Vasco. Então sem dúvida seríamos grande candidato (ao título).
Mesmo sem o tetra, aquela equipe até hoje enche os olhos de Renê. Atualmente auxiliar técnico de Paulo Autuori no Botafogo, ele lembra com carinho daquela geração, que para muitos foi considerada a "verdadeira Máquina Tricolor" por ter sido mais vencedora do que o timaço de Rivellino e companhia nos anos 70. O ex-meia tem até planos para eternizar os feitos e histórias daquele elenco.
– Por culpa do momento financeiro da época, foi uma geração montada com muitos jogadores baratos: eu, Jandir e Tato viemos do Inter, o Branco do Bagé... Lembro que fui o último a chegar, um dia depois do Romerito. Mas se tornou uma geração maravilhosa. Nossa equipe era boa, fisicamente então era excepcional e taticamente perfeita. A briga era boa até para formar o banco. Nunca vou me esquecer. Ainda vou escrever um livro para contar a história desse time.

Por Thiago Lima 
Globoesporte.com
Rio de Janeiro
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