Técnico brasileiro é campeão no Laos e mostra estrutura de clube grande

Cada vez mais em alta, o futebol asiático tem se tornado nos últimos anos o destino de jogadores de nível mundial e ganhado os holofotes da mídia e dos torcedores. Fruto de grandes aportes do capital de bilionários de Catar, Arábia e China, que apostam no esporte como fonte de receitas, a estrutura nesses países tem crescido e acaba refletindo até em ligas próximas, menos conhecidas. É o caso, por exemplo de Laos, país que faz fronteira com Tailândia, Camboja e Vietnã, ao sul dos chineses, e que tem um técnico brasileiro no time campeão da liga local. Leonardo Vitorino assumiu o Lanexang United após a sétima rodada e, a partir daí, emplacou 19 vitórias consecutivas, segundo ele, a melhor marca da Ásia atualmente. E pensa que ele conta com algum medalhão ou jogador brasileiro? Nada disso. Para o comandante, o importante foi a estrutura oferecida pelo clube, de dar inveja a muitas equipes do Brasil.
- A gente tem uma das melhores academias do mundo asiático. Estamos montando um departamento de fisiologia que vai ser um dos melhores da Ásia. Departamento de fisioterapia, é de primeiro mundo também (...) O investimento é todo do Laos mesmo, não tem dinheiro de fora. A gente tem patrocinadores, mas o presidente é o responsável pela "Lanexang Waters", a água mineral do país, e ele tem algumas hidrelétricas aqui. O investimento do Catar, por exemplo, foi alto nos (atletas) estrangeiros, mas o investimento nosso é em cima de dados. A gente avalia toda estatística de um jogador quando vai contratar. Não é muito pelo nome. Aquele filme, o "Moneyball" ("O homem que mudou o jogo", no Brasil), a gente tem um profissional parecido, que avalia os dados de um jogador - explicou Vitorino por telefone ao GloboEsporte.com.
Pouco conhecido dos brasileiros, Leonardo Vitorino está há quase 10 anos trabalhando fora do Brasil e, aos poucos, consolida sua carreira na Ásia. Depois de passar por CFZ, Botafogo e Santos, o treinador esteve na base do Al Gharafa de 2007 a 2012 e chegou a ser auxiliar técnico de Caio Júnior no clube árabe. Dali, foi para o El Jaish, do Catar, também trabalhando na formação de novos jogadores, e desempenhou função parecida no Buriram United, da Tailândia, time que era treinado por Alexandre Gama. Com a ideia de "fazer muito com pouco", foi convidado para ir ao Laos, país vizinho, e assumir o Lanexang.
É bem verdade que o Laos é um país que convive com a pobreza e com baixa expectativa de vida (hoje em torno dos 56 anos). Ainda com reflexos da Guerra Fria e dos confrontos dos Estados Unidos com o Vietnã, país vizinho, a economia tem crescido aos poucos e a iniciativa privada é algo relativamente novo, já que o governo comunista, de partido único, começou a encorajar os investimentos apenas no fim da década de 80 e início dos anos 90. A agricultura ainda é o principal setor econômico do Laos, que também recebe muito turistas a fim de conhecer a cultura e os belos monumentos budistas, religião oficial do país.
Lanexang academia Laos (Foto: Arquivo Pessoal)
O Lanexang investe no futebol e a cademia no clube é de última geração (Foto: Arquivo Pessoal)
Apesar disso, Vitorino confessa que se surpreendeu tanto com a tranquilidade local como com a organização do futebol local. Sem dificuldades para trabalhar, ele explica que o futebol ainda é algo que está em crescimento no país, mas que o Lanexang tem conseguido atrair um bom público para o seu estádio, com capacidade para 4 mil pessoas.
- Eu imaginava chegar num país muito pobre, sem estrutura, dificuldade até para executar o trabalho. Mas eu me surpreendi positivamente. O Laos é um país muito bonito, com lugares turísticos, as pessoas são muito acolhedoras. Não tem nosso feijão, guaraná e açaí. Mas me surpreendeu. Existem três estádios aqui muito bons - o Nacional, o nosso, e o Lao Toyota. O futebol ainda é muito ruim. A federação atual está tentando mudar um pouco, criou regras importantes. Para um clube disputar a liga, ele tem que ter além da divisão de base, 17 itens que precisam ser cumpridos. Para a AFC Cup, temos que ter 27 itens cumpridos - iluminação adequada, dimensão do campo oficial, entre outros. Eles estão seguindo o modelo de gestão do futebol europeu. Essas mudanças são válidas. É gratificante a gente representar o futebol brasileiro neste país. Esses resultados vão mudar o futebol daqui - disse o treinador.
Diferente de outros treinadores brasileiros no mundo asiático - sobretudo na China - Vitorino não pediu a contratação de jogadores de seu país. O elenco é majoritariamente composto por atletas locais além de dois japoneses, um macedônio, um camaronês e um uruguaio, Diego Silva, o craque da equipe. Segundo o comandante, a língua não tem sido um problema - ele não tem um intérprete - e as conversas são normalmente em inglês.
- Eu falo um pouco de Tailandês, algumas palavras técnicas. Mas a gente se vira bem em inglês, espanhol e árabe. Têm só cinco jogadores brasileiros (em toda a liga do Laos), sem grandes passagens pelo Brasil. A maioria jogou ao redor da região - Tailândia, Vietnã, Hong Kong. Nossa vantagem é ter japoneses, muito disciplinados dentro de campo. O brasileiro ainda precisa seguir mais essa linha tática - reclamou.
Porém, como não poderia deixar de ser, há problemas de estrutura que não condizem com um futebol de alto nível. O treinador relata que já passou por alguns problemas em outros estádios, mas minimizou as dificuldades, lembrando que no Brasil é comum encontrar casos semelhantes nos estaduais ou em divisões inferiores da liga nacional.
- A maior dificuldade foi em Savannakhet, contra o Savan, o estádio era muito ruim, o vestiário era um quadrado, com uns bancos de madeira antigos, dos anos 70. Para tomar banho, usar o toalete, tinha que sair, usar em outra sala, toda quebrada. As janelas, qualquer um tinha acesso, poderia ver o que estávamos fazendo. Foi um jogo bem difícil. O campo era muito ruim, mas vencemos por 1 a 0 - explicou.
Com uma carreira moldada na Ásia, Leonardo Vitorino fala sim em voltar ao Brasil para dirigir uma equipe do país. Segundo ele, algumas propostas surgiram em 2015 e neste ano, mas a vontade, ao menos no momento, é seguir no Laos, dando continuidade ao trabalho no Lanexang, e alfinetou a gestão de futebol brasileira.
- Eu tive contato com uma equipe do Brasil, da primeira divisão de Santa Catarina, para a próxima temporada, mas minha intenção é permanecer. O presidente já sentou comigo, explicou que o projeto é a longo prazo. Ainda não assinei, mas minha intenção é ficar. Em questão de valores, seriam mais ou menos a mesma coisa. Não é tão alto como na China, por exemplo, mas valores até melhores que na Arábia (...) Tenho vontade de voltar ao Brasil, acho que agora não é o melhor momento. A parte administrativa passa por um processo de transição. Os profissionais estão evoluindo, mas ainda está nesse processo. O dirigente é passional ainda. Não avalia o trabalho da comissão técnica através de planejamento, estatística.

Por GloboEsporte.com 
Rio de Janeiro

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